sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Midiolatria

[Daniel Lüdtke]

Corpo imóvel, olhos atentos, mente aberta. Os adoradores, em posição de reverência, veneram a divindade. Nada pode atrapalhar seus instantes de culto. Sentem prazer indizível em desfrutar desses momentos sagrados, passando horas e horas em meditação. Os praticantes desta religião são os mais assíduos, não ficando um dia sequer sem contato com sua fé.

Ao acordar, a primeira coisa que fazem é passar momentos em adoração matinal. No trabalho ou na escola, rápidas fugas para comunhão. De volta ao lar, prostram-se imediatamente ao deus. No almoço, entre uma garfada e outra, olhadelas de fé. À tarde, impossível ficar sem culto. À noite, horário em que os templos estão mais cheios, nada melhor que meditação para aliviar o estresse do dia agitado. Hora de dormir, um último adeus àquele que permaneceu todo o dia ao seu lado. Assim, dormem ao som da voz do deus.

Cada dia mais cultuada, a mídia é maior e mais nova religião do mundo. Adeptos de toda a parte do planeta formam a cadeia crescente dos midiólatras. Televisão, internet, rádio, revistas e jornais são algumas das divindades que compõem o ciclo de adoração. Para alguns, eles são importantes, para outros, todavia, são essenciais para a existência.

Não faz muito tempo que as pessoas buscavam a religião como meio de escape para aliviar sentimentos ruins, como tristeza ou depressão. Entretanto, este é exatamente um dos motivos que têm levado milhares de pessoas a determinadas mídias, como a internet, por exemplo. Este meio de escape dos problemas é apontado pela Associação de Psicologia Americana como um dos sintomas de alguém que está viciado em internet.

Em uma pesquisa feita pela AOL (América Online), 87% dos entrevistados disseram que sentiriam muito a falta de acesso online. Outros 64% afirmaram que não conseguiriam mais viver sem internet. Exagero ou não, percebe-se aí claramente os primeiros indícios de midiolatria.

A internet é o meio de comunicação que apresenta maior crescimento. Os analistas do Morgan Stanley prevêem que, no final de 2003, a internet possuirá 536 milhões de adoradores, e que 85% dos usuários de PCs em todo o mundo terão acesso à web - que bênção!?

A TV, um dos mais antigos símbolos da midiolatria, também continua ganhando mais adeptos. A pesquisa "A Voz dos Adolescentes", realizada pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), constatou dados relevantes sobre essa mídia. Notou-se que os adolescentes estão preferindo cada vez mais passar tempo se divertindo em casa que na rua. Dizem que se você já passou oito anos de sua vida assistindo TV, em média 3h55 por dia, já ficou um ano e três meses cultuando a telinha. Segundo a pesquisa, essa é a média dos brasileiros entre 12 e 17 anos.

Outras análises mostram que uma pessoa que assiste em média três horas de TV por dia, aos 75 anos terá passado nove deles em frente ao aparelho. Parece exagero, mas isso é o que acontece quando pessoas se deixam levar inteiramente pela influência midiática.

Determinados veículos, principalmente os segmentados, também são alvo de adoração. Milhares de indivíduos ociosos esperam avidamente suas revistas sobre computador, futebol, fofoca, moda e mulheres; resposta a suas orações.

Hoje, a religião da mídia possui mais praticantes que a Igreja Católica. Está presente em todas ruas; mais que a Igreja Universal. Tornou-se mais popular que os movimentos carismáticos. Tornou-se tão prejudicial quanto a falta de religião. Midiolatria, isso sim é pecado.

Mídia catequizada e Igreja em alta

[Daniel Lüdtke]

“Quem empilhou e separou esses jornais sobre o papa?”, perguntei a uma estagiária da agência. Depois do gesto dela de desconhecimento, percebi meu erro e sorri alto. Tratava-se apenas de uma pilha comum de jornais. Ninguém tinha separado os periódicos por tema. A própria mídia fizera isso.

Os meios de comunicação alardearam a visita de Bento 16 ao Brasil com meses de antecedência. O Estado de S. Paulo trazia a contagem regressiva para o grande dia no cada caderno especial “O papa no Brasil”. Mas, além de antecipar e cobrir o evento com muita técnica, a mídia deixou se envolver emocionalmente com o fato. Agiu como uma devota extasiada diante do religioso. A conseqüência foi uma exaltação da fé católica em detrimento das demais. Poucos foram os momentos de sobriedade laica.

“O Estado é laico. A mídia é laica?”, perguntou a última edição do Observatório da Imprensa aos internautas. Até 23 de maio, 81% deles responderam “não”.

Isso foi visível. Segundo a mídia, a real perspectiva religiosa no Brasil é o fortalecimento da Igreja Católica. Propagou-se a idéia de que ela é a Igreja com “i” maiúsculo. O resto é seita.
Em uma das manchetes do Jornal Nacional os evangélicos foram chamados indiretamente de seita. Já O Estado de S. Paulo, não poupou o uso do adjetivo na edição de 10 de maio – no caderno especial sobre a vinda do papa, com 12 páginas. Em outros textos, igrejas evangélicas que estão em ligação ecumênica com a Igreja Católica são chamadas de “denominações cristãs”. As demais são seitas.

Em alta?

Há uma constante superênfase na Igreja Católica nas fotos, na linguagem e na ideologia das entrelinhas. A Globo, que há quase 40 anos transmite a “Santa Missa”, mostrou sua estrita ligação católica desde a cobertura da escolha do novo papa. E a Globo sempre lucra com isso. A chegada dele ao Brasil fez a emissora subir 75% na audiência.

A mídia raramente mostra a queda gradual de membros da Igreja, além do crescente número de católicos não-praticantes. Ela mostra a Igreja em ascensão. Poucos enfatizaram a presença de menos de um terço do esperado na missa em Aparecida, e os que o fizeram, responsabilizaram o medo de congestionamento.

O Estadão, que em alguns momentos idolatrou o líder eclesiástico, ousou publicar, em 9 de maio, pesquisa que mostrou 33,3% dos católicos como não satisfeitos com a religião; enquanto que 90,7% dos que deixaram o catolicismo estão realizados na nova denominação. Oscilou, como muitos, entre um jornal sério e um house organ do Vaticano.

A Folha Online pareceu também ter percebido o excesso monotemático e, entre as mais de 50 notícias diárias sobre o papa no site, o jornal republicou uma série de reportagens chamada “saiba mais sobre religiões”. Além de abordar o Cristianismo como um todo, tratou de budismo, espiritismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo, cientologia e teoltecas. É como se o jornal estivesse dando uma mensagem: olhe, ainda existem outras religiões no mundo!

Lorota canônica

Muitas matérias tiveram o tom das revistas populares de fofoca. Mesmo Folha Online aproveitou o momento para desenvolver-se nesse segmento. “ Papa volta a acenar para fiéis que fazem vigília no mosteiro de São Bento”, publicou na quinta, 10, às 12h47. Duas horas depois outra notícia relevante: “Papa reaparece na sacada do mosteiro pela terceira vez para saudar fiéis”. O jornalista informa que o papa apareceu ao público após o almoço, e fez questão de informar o cardápio: “o papa comeu nhoque de mandioquinha acompanhado de vinho selecionado”.

“Saiba como é o quarto do papa em Aparecida”, divulgou também a Folha no sábado, 12. O Estadão, em 9 de maio, dedicou uma página inteira para mostrar os aposentos do papa no mosteiro São Bento. Mas a matéria vencedora foi: “ Papa descansa em seu quarto no mosteiro de São Bento”. Realmente foi muito importante saber que ele também dorme.

Aliança

Pouco se falou sobre a intenção da visita do papa ao Brasil. Apenas excessos sobre a fé dos brasileiros e exploração imagética do eclesiástico.

A passagem do pontífice pelo País tentava o estreitamento ainda maior entre Igreja e Estado. O Estadão, em 8 de maio, publicou reportagem afirmando que o Vaticano não conseguiria atingir seus objetivos principais na vinda do papa, que seriam “a assinatura de um acordo com o governo garantindo à Igreja todos seus direitos no território nacional, inclusive a consolidação de todas as isenções fiscais que recebe, obrigações no setor educacional e mesmo a autorização para que missionários possam entrar em reservas ecológicas e indígenas”. Segundo o texto, um dos temores do governo seria a pressão evangélica para acordo semelhante.

Uma coisa é certa: com o apoio dos meios de comunicação, com certeza o papa alcançará seus objetivos. Não foram poucas as vezes que o líder católico se reuniu com jornalistas. No avião em que veio ao Brasil, 70 jornalistas o entrevistavam durante toda a viagem. Recentemente, também, Bento 16 agradeceu aos profissionais pela cobertura da transição papal e disse que deseja dialogar mais com a mídia.

Crescendo essa ligação entre catolicismo e mídia, aliada ao ecumenismo sob o guarda-chuva da Igreja Católica Romana, a considerada herdeira direta dos apóstolos se consolidará. Esta é uma perspectiva certa. Resta saber se a Idade Média continuará somente no passado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Che Guevara dos tempos bíblicos

[Daniel Lüdtke]

Para quem acha que o Jesus da revista Veja é totalmente diferente do da Superinteressante, é aconselhável fazer uma reavaliação. Ambas, publicadas pela Editora Abril, são repetitivas ao abordar a pessoa de Cristo. A tendenciosidade, quase inevitável ao se falar em religião, estampa-se escancaradamente nas páginas evolucionistas da Super. Em Veja, é mais nas entrelinhas.

Todos os artigos giram basicamente em torno de temas como (1) provas de que Jesus não nasceu em Belém e sim em Nazaré; (2) possibilidade de Cristo ser essênio - uma seita da época; (3) descoberta de 1968 de um homem de mais ou menos 30 anos, crucificado no tempo de Jesus; (4) histórias absurdas dos livros apócrifos (não canonizados); etc.

As duas revistas são idênticas mesmo quando tratam Jesus como um revolucionário do mundo antigo. Veja, mais voltada para a massa, parece tratar disso com maior suavidade. Isso se deve ao fato de que seu público-alvo é formado por maioria esmagadora de católicos e um crescente número de evangélicos - afirmando o quadro religioso do Brasil. Daí, falar de Jesus explicitamente como um Che Guevara poderia ser chocante demais.

A matéria de capa de Veja de 25 de dezembro de 2002 - "As faces de Jesus" - mostra Cristo como mais um entre muitos. "Hoje é fácil enxergar a beleza da mensagem de Jesus, mesmo que não se acredite em sua origem sagrada", diz o texto. Quem não acredita? O autor do texto? Deve ser.

Essa afirmativa, contudo, aparece escondida no amontoado de frases que parecem enaltecer a Jesus. O respeito a Cristo mostra-se em pequenos detalhes, como usar letra maiúscula nos possessivos que a Ele se referem - "Seu rebanho", por exemplo.

No entanto, é inegável o caráter ecumênico do semanário. Na mesma edição, aparecem outras matérias acerca de Jesus. Em "O mestre invisível", Cristo é mostrado como um homem que trouxe soluções para o mundo moderno: solidariedade, paz, respeito e amor.

Em "A ciência à procura de Cristo" Jesus é "a mais influente personalidade de toda a história humana". Como sugere o nome, a reportagem fala da busca científica e arqueológica em comprovar a existência de Jesus.

Em "A sobrevivência da fé" a ciência é criticada por ter tentado apagar Jesus da história. Mesmo tendo sido "morto" por Karl Marx, Charles Darwin, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, "Deus continua vivo no mundo", discute Veja. De maneira relativamente neutra mostra a posição dos cientistas que crêem e dos que não acreditam.

A autora, Isabela Boscov, aparentando imparcialidade, diz que não consegue ver alguém se apegando a teorias como o Big Bang ao estar em um avião em queda. No tópico "E disse Jesus...", Veja apresenta dezenas de citações de Cristo de cunho social.

Arquivo

Na edição de 15 de dezembro de 1999, "Jesus 2000", Veja apresenta o Cristo histórico, apontando positivamente as tendências da religião cristã na mudança da contagem dos anos e a sua adaptação ao mundo moderno.

Dando uma olhada no arquivo encontramos algumas matérias não tão "cristianizadas" como as citadas. Em "O Jesus da história", de 23 de dezembro de 1992, o autor, Roberto Pompeu de Toledo, comenta sobre a vida de Jesus: "Não há história mais cheia de furos, esta é a verdade. Os relatos são confusos, as zonas de sombra se sucedem, as contradições abundam". As divergências apontadas por eles são tão grandes e enfatizadas que mais parecem tentar negar a existência de Cristo.

Em "A morte de Jesus", publicada em 12 de abril de 1995, Cristo está preste a ser preso e portanto "acompanha-o uma turba armada de espadas e paus'". Será que Jesus era um guerrilheiro? Veja declara que o ato de Cristo entrar no templo e derrubar as mesas dos cambistas que comercializavam ali se refere a um "ato contra o poder e a política dominante".

No mesmo artigo são trazidas opiniões de outros que acreditam que "Jesus não era um subversivo". Todavia, a idéia que fica na mente parece ser a de um Jesus revoltado com o governo da época, totalmente oposto aos quadros renascentistas - também questionáveis, por sinal.

Ciência versus religião

E a Superinteressante? Por ser voltada para temas de divulgação científica - entre eles, a evolução -, parece incoerente abordar a Jesus como sendo o criador do universo, como ainda acredita a maioria dos cristãos. A parcialidade, neste caso, vai para o mesmo lugar que a santidade de Cristo.

Parece que a Super gosta de mexer onde não está apta. Na verdade, a revista gosta de falar de temas polêmicos e que dão repercussão. Consegue!

Com prepotência visível, a Super estampou em dezembro de 2002 "A verdadeira história de Jesus". Hum? Ouvi verdadeira história? No artigo, dentre outras abordagens, o autor acusa os evangelhos de serem parciais ao tratarem da realidade de Jesus - sendo que, o próprio autor, não percebe sua total parcialidade. Nega, por exemplo, afirmativas como a de Jesus ter nascido em Belém [ver postagem A "tendenciosa" história de Jesus - por Superinteressante].

No mesmo texto, Jesus Cristo é apresentado como um homem motivado por um sentimento de injustiça social e um entre muitos curandeiros que se valiam de milagres subversivos, realizados para desafiar os líderes do templo. Deixa ainda transparecer a idéia de que o corpo de Jesus até hoje nunca foi encontrado porque o corpo dos crucificados era comido pelas aves. E o que dizem os teólogos que acreditam na sua ressurreição? Perdão! Esqueci que esse tipo de coisa não é provada pela ciência.

Como se não bastasse, a Superinteressante também publicou em julho de 2002: "A Bíblia passada a limpo". De acordo com o artigo, "o que sabemos com certeza é que Jesus foi um judeu sectário, um agitador político que ameaçava levantar os dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano".

Algumas coisas nunca entenderemos. Jesus é sempre mostrado como um homem raivoso, provocador e subversivo. Enquanto isso, outros líderes religiosos do passado ganham grandes "bajulações" por parte das revistas. Na Super, em "O iluminado" (março/2002), Buda ganhou muito mais destaque e foi apresentando de maneira muito mais convincente.

Longe de ser um Che Guevara dos tempos bíblicos, Jesus é uma figura que vai além da retratação feita por Veja e Superinteressante. Se a opinião dos editores é contrária, tudo bem! Mas os dois lados da moeda têm que ser mostrados.

A religião da Nature

[Daniel Lüdtke]

Com objetivo de se opor ao movimento de reafirmação criacionista da Igreja da Inglaterra no século 19, nove cientistas decidiram formar uma sociedade onde pudessem desenvolver suas pesquisas científicas longe da intromissão da igreja e do fogo do inferno – criaram, assim, o X-clube. Esse grupo era formado por cientistas ilustres, entre eles, Thomas Huxley, Joseph Hooker, Herbert Spencer e Thomas Hirst. Este último, ao descrever a primeira reunião do X-Club, afirmou que a união do grupo foi motivada pela “devoção à ciência, pura e livremente desassociada dos dogmas religiosos”. Nasceu aí mais uma religião.

A “religião científica” do X-Club também ganhou a uma “bíblia” para difusão de suas idéias: a revista Nature. Joseph Hooker e Thomas Huxley foram os fundadores do periódico, publicado a partir de 4 de novembro de 1869. Até hoje, inúmeras contribuições foram dadas pelo semanário. A Nature, por exemplo, foi a primeira revista a divulgar a descoberta do raio X, em 10 de março de 1896, além dos posteriores estudos sobre a estrutura em dupla hélice do ADN e do buraco na camada de ozônio. No campo do evolucionismo, entretanto, ao defender sua posição dogmática da origem da vida, a Nature comete pecados.

Na capa de 28 de abril de 2005, a Nature estampou a seguinte nota: “Esta revista contém material sobre evolução. A evolução por seleção natural é uma teoria, não um fato. Este material deve ser abordado com mente aberta, estudado cuidadosamente e considerado criticamente”. A priori essa parece uma afirmação sincera de cientistas conscientes da carência do empirismo em muitas das teorias macro-evolutivas. Mas trata-se de ironia das mais ferrenhas. O texto imita os adesivos usados sobre os livros- texto do Ensino Médio dos Estados Unidos. O editorial e a matéria principal abordam a preocupante infiltração do criacionismo no mundo acadêmico e possíveis atitudes para freá-lo.

Outro editorial da Nature trouxe a seguinte afirmação: “O mundo faz simplesmente mais sentido sem a existência do deus, e as intervenções religiosas são ofensivas ou irrelevantes”. Nota-se, dessa forma, o posicionamento dogmático da revista desde os primórdios até hoje. A revista defenderá seu posicionamento mesmo sob a necessidade de uma guerra santa.

Pecados

Em janeiro de 2003, a Nature estampou numa de suas capas o achado do dinossauro chinês de quatro asas. Esta descoberta foi considerada uma das maiores do ano – por explicar como as aves, descendentes dos dinossauros, teriam aprendido a voar. Entretanto, este achado foi uma fraude, segundo o palentólogo Tim Rowe. O fóssil seria, na verdade, restos de duas espécies de dinossauro e uma de ave. Rowe disse que alertou o editor da Nature, Henry Gee, sobre a possibilidade de fraude, mas Gee afirmou não ter “nada definitivo” sobre o assunto.

Nota-se que, mesmo na ausência de certezas, supostas descobertas que corroboram o evolucionismo são alardeadas. Trata-se de apologética científica.

Outro pecado da Nature, bem como da comunidade científica em geral, é tirar conclusões precipitadas a partir de um pequeno achado fóssil, apresentando sua reconstituição como verdade absoluta, prova cabal de sua crença.

Um exemplo claro foi a nova descoberta de nove dentes de gorila, datados de 10,5 milhões de anos, indicados como importantes para “ajudar a preencher uma grande lacuna no registro do fóssil”. Mas como esses poucos dentes são evidência de que os homens vieram de um ancestral símio? Lá no meio do texto, os paleoantropólogos admitem: “Nós não sabemos nada sobre como a linha humana emergiu realmente dos grandes macacos”. Tecnicamente essa descoberta não seria uma evidência para o evolucionismo devido à imprecisão de dados, mas é retratada como tal.

Por outro lado, descobertas que confirmam a Bíblia são pouco divulgadas ou somadas a outros dados que inibem a possibilidade de serem compatíveis com as crenças cristãs. O artigo “Human evolution: Pedigrees for all humanity”, publicada em 30 de setembro de 2004, na área de estatística populacional, garantiu que toda a humanidade converge num único ancestral e que este existiu há poucos milhares de anos. Esta notícia, que mais parece apontar ao relato bíblico de que Noé seria ancestral comum a todos os seres humanos, aparece na Nature sob ótica antiteísta.

Em 1998, a Nature publicou "Leading scientists still reject God". No texto, mostra-se que a crença em Deus entre os cientistas de elite enfraqueceu a partir do início do século – apenas 7% acreditam. Enquanto isso, os outros 93% são apresentados como não tendo religião. Mas a grande verdade é que esses 93% também têm uma religião. Nela, Deus não é o objeto de adoração, mas a própria ciência. Esses crentes do evolucionismo farão qualquer coisa para proteger sua doutrina de influências “heréticas” como o Criacionismo, ou que Inteligent Design, que chamam de “Criacionismo disfarçado”. A Nature, por sua vez, como principal veículo dessa religião, continuará manipulando descobertas e informações de modo a confirmar algo que não se pode precisar empiricamente: a origem da vida.

A "tendenciosa" história de Jesus - por Superinteressante

[Daniel Lüdtke]

A capa da Superinteressante de dezembro de 2002 trombeteou: “A Verdadeira História de Jesus”. A verdade, todavia, elemento primordial de um texto jornalístico, deu lugaro ao sensacionalismo, unilateralidade e distorção! Neste texto, serão estudados os principais autores-base do texto, seus argumentos e linhas histórico-teológicas. Serão verificados os pontos apresentados como verdade por Rodrigo CAVALCANTE, autor da reportagem, e os deslizes éticos de jornalismo na mesma.

Chamada sensacionalista

A chamada da revista Superinteressante de dezembro de 2002, de verdade não tem nada. Sensacionalista, a manchete indica trazer informações bombásticas; novidades sobre Jesus. Entretanto, o que traz são assuntos mal resolvidos, argumentados por autores liberais, numa visão unilateral do Jesus histórico.

Em entrevista com Adriano Silva, diretor de redação da revista, perguntou-se quanto à chamada da reportagem. Silva respondeu que a intenção foi fazer uma “licença poética” (TORRES:2003).Talvez essa possa ter sido a intenção do autor, mas o que chegou aos leitores foi um texto sensacionalista, do tipo “prometeu e não pagou”[1]; afronta infundada à veracidade dos evangelhos e à crença de milhares de pessoas.

No Observatório da Imprensa, Isabel Rebelo ROQUE argumenta que os jornalões brasileiros, como Folha de S. Paulo, estão sofrendo de “ausência de suplementos científicos”. Para exemplificar a desqualificação dos mesmos, cita a Superinteressante como exemplo: “manchetes bombásticas que, no mais das vezes, criam uma expectativa de consistência que não se confirma ao longo da leitura. Em geral, tratam de estudos recentes ainda carentes de embasamento e aceitação no meio científico. Isso, em vez de passar ao leitor um sentimento de participação no processo, faz dele um alienado, um objeto à deriva, uma angustiada cobaia que na edição seguinte lerá que aquilo tudo ´não era bem assim´. Isso quando a coisa não pára por ali mesmo, e ele fica com a capenga informação inicial (2002)”.

Os tópicos a seguir abordarão os autores nos quais a reportagem foi baseada e as ditas “verdades” da Superinteressante, provando assim o caráter unilateral do texto na apresentação de seus discursos.

Reportagem baseada em autores liberais

Os principais autores citados por Rodrigo Cavalcante, autor da reportagem, são: John Dominic Crossan, Richard Horsley, André Chevitarese, John P. Méier, Jaldemir Vitório. No capítulo anterior falou-se do grave erro jornalístico de selecionar fontes para expressar opinião própria. Todavia, esse parece ser um dos deslizes cometidos por CAVALCANTE. De linha liberal, os autores são citados ao longo do texto sem nenhuma opinião contrária.

Crossan[2], por exemplo, é um padre Jesuíta da ala ultra-liberal. Para ele o Jesus histórico é totalmente distinto do Jesus aceito pela fé. Crossan é seguidor das idéias de Albert Schweitzer[3], que afirmava que Jesus era um louco que anunciava o reino apocalíptico de Deus[4].

Contudo, como o reino de Deus não veio, na ótica de Schweitzer, este erro ocasionou sua morte.
Horsley[5], por sua vez, retrata o relato dos evangelhos como o documento de um movimento. Analisando-o, Martinus de BÔER afirma que para Horsley, Jesus e seus discípulos formavam um “movimento popular oposto à elite política e cultural de governantes e seus representantes, os escribas”. Segundo Horsley, “na oração pelo reino, Jesus ensinou ao povo a pedir ao Pai celeste pelo pão da sobrevivência e pelo cancelamento de dívidas”. Percebemos aí claramente a tendência liberal de Horsley.

Na mesma linha não-conservadora encontra-se John P. MÉIER, historiador moderno, padre e ex-presidente da Associação Bíblica Católica. Seu caráter liberal pode ser claramente comprovado em seu livro Um Judeu Marginal, onde afirma que Jesus não nasceu em Belém e realizava seu ministério em Jerusalém na época das grandes festas, “quando as grandes multidões de peregrinos lhe proporcionariam um público que, de outra forma, ele não conseguiria atingir (MÉIER:1993, 401)”.

Quanto aos outros autores, embora não se tenham informações consistentes, nota-se seu feitio liberal através de seus comentários na reportagem. Enquanto os tradicionais baseiam-se estritamente nos evangelhos, os liberais tendem a especular.

Idéias apresentadas como verdade


Estudar as inúmeras idéias defendidas por Rodrigo CAVALCANTE tornaria este trabalho muito extenso. A partir daí, abordaremos os principais pontos, dispostos a seguir. A análise jornalística da reportagem buscará os conceitos de imparcialidade, transparência e exatidão do texto.

Jesus nasceu em Nazaré

No suspensório da reportagem aparece: “Ele não nasceu em Belém”. Uma afirmação convicta que adiante, no texto, é apresentada como uma possibilidade: “Provavelmente Jesus não nasceu em Belém”. Em outro momento o autor apresenta argumento de Valdemir Vitório: “Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré”. Mas afinal, Jesus nasceu ou não nasceu em Nazaré?

A imprecisão dos argumentos denota insegurança no discurso. Enquanto os próprios evangelhos afirmam que foi em Belém (“Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia...”)[6], a reportagem, sem argumentos sólidos, declara que não foi.

Além do mais, a única visão que consta na reportagem é a de que “provavelmente” Jesus tenha nascido em Nazaré, e não em Belém. Autores como Rodrigo P. SILVA, professor de Filosofia e Antropologia e Curador Adjunto do Museu Paulo Bork de Arqueologia Bíblica do Centro Universitário Adventista de São Paulo e autor de A arqueologia e Jesus, alegam que Jesus nasceu mesmo em Belém. Se não há consenso geral sob determinado fato, aquela vertente não pode ser tida como verdade absoluta. Entretanto, isso é o que “A Verdadeira História de Jesus” mostra.

É lenda a história de Herodes e a matança das crianças

Expõe CAVALCANTE: “(...) A terrível execução dos de recém-nascidos ordenada por Herodes (...) teria sido uma ‘licença poética do texto’, dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés.” Na legenda da foto 1 a afirmativa é confirmada, articulando-se que esse fato “não passa de lenda”.

Enquanto CAVALCANTE tenta provar a inexistência do ocorrido, relatado em Mateus 2:16, autores como Russel Norman CHAMPLIN, teólogo tradicional, mostra o contrário: “Herodes, que facilmente assassinou sua esposa e filhos, achou fácil matar alguns infantes desconhecidos. As crianças mortas eram não só de Belém, mas também da aldeia vizinhas, pois Herodes quis ter a certeza de que o filho de Maria não escaparia. O número de crianças mortas provavelmente não foi grande (A. T. Roberson calcula que houve mais ou menos quinze a vinte crianças mortas). Devido a tão exíguo número, Josefo e outros historiadores não registram o incidente. Em comparação às atrocidades cometidas por Herodes, isso não se notabilizou (2002:282).”
Para composição de uma reportagem bem embasada, transparente e exata, Rodrigo CAVALCANTE deveria ter mencionado autores que contrapõem a idéia central. Não fazendo assim, comprometeu seu texto, tornando-o unilateralista e tendencioso.
Magos e fuga ao Egito não existiram

Embora o capítulo 2 de Mateus descreva a visita de magos a Jesus e em seguida a fuga de sua família ao Egito, CAVALCANTE rebate: “(...) A fuga de Maria e José para o Egito também teria sido uma ‘licença poética.’” Discute ainda: “Até os simpáticos três reis magos estariam ali para representar que Jesus foi reconhecido como messias por povos do Oriente - e quase nenhum historiador defende que, de fato, eles tenham existido.”

Acontece que a ausência de provas não é prova de ausência. O fato de não existirem fontes extra-bíblicas que comprovem esses ocorridos não quer dizer que são irreais. Entretanto, apresentar como verdade meras especulações, não é condizente com o jornalismo sério, e sim com o entretenimento.

Jesus foi um agitador político

Aqueles que conhecem as idéias dos teólogos liberais reconhecem neste ponto um típico argumento dessa linha teológica não-conservadora. CAVALCANTE declara: “No meio da multidão, pouca gente deve ter se comovido com a prisão e morte de mais um judeu agitador”. Semelhantemente, afirma Horsley: “Não é à toa que surgiram neste período vários movimentos populares de contestação ao poder romano, do qual Jesus era mais um representante.”
Descaracterizando o conceito de divindade de Cristo, defendido pelos teólogos conservadores, e apresentando o “Cristo arruaceiro” como o verdadeiro, CAVALCANTE peca na ética. Em assuntos como este é praticamente impossível alegar verdade incondicional.

Prova disso é que em maio de 2003 a revista Terra publicou a reportagem “A ciência encontra a Bíblia”, contraponto as idéias da Superinteressante. A revista Terra parece ter uma outra verdade bem diferente: “Rebelde político, arruaceiro, criador de uma seita, feiticeiro. Muitas são as definições que já deram a Jesus. Mas a verdade é que mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo crêem que ele era o que dizia ser: o filho de Deus (CAVALCANTI:2003, 56)”.

Existiram dois Jesus


Mais uma excêntrica prova de unilateralidade é mostrada na reportagem de Rodrigo CALANCANTE, ao expor tendenciosamente uma idéia liberal que prega e existência de dois Jesus distintos. A citação a seguir, apresentada como verdade, não foi em nenhum momento confrontada com opinião de teólogos de linha conservadora: “Pode parecer estranho, mas para os estudiosos há pelo menos dois Jesus. O primeiro, que dispensa apresentações, é o Cristo (o ungido, em grego), cuja história contada pelos quatro evangelistas deixa claro que ele é o enviado de Deus para salvar os homens com a sua morte.” Continua: “O outro Jesus (...) é Yeshua, o homem que morreu sem chamar muita atenção dos cidadãos do Império Romano.”
A parcialidade é tanta que CAVALCANTI coloca: “(...) Para os estudiosos há dois Jesus”. Que estudiosos? Logicamente isso se refere aos liberais. Mas por que isso não é mencionado no texto? Onde fica a transparência do jornalismo?

A idéia apresentada acima de dois Jesus parece basear-se nas idéias do teólogo liberal Martin Kähler, não mencionado na reportagem. Discursando sobre as idéias modernas e contemporâneas da Pessoas de Cristo, Edílson VALIANTE afirma que Martin Kähler faz diferença entre o Jesus da história e o Jesus da fé. O Jesus histórico é “o Jesus atrás dos evangelhos, que tinha pouca influência, capaz de conquistar apenas 12 discípulos”. Esse foi o Jesus que morreu sem chamar a atenção, colocado na reportagem como Yeshua. O outro é “o Jesus da fé, que teve grande influência, como foi crido e pregado pelos apóstolos (VALIANTE:2002, 20).”

Milagres de Jesus tinham caráter subversivo

Esta idéia está intimamente associada ao “Jesus arruaceiro”, que veio desafiar a elite dominante. Em duas citações principais, Horsley argumenta: “Hoje é difícil de entender como um ato desses [curar doenças] era radicalmente subversivo.” Ainda: “Uma série de outros curandeiros também usavam esse ritual [realizar curas] para desafiar o poder do templo naquela época.”
Embora essa não seja uma verdade para os teólogos tradicionais e conservadores, CAVALCANTE mais uma vez insere citações liberais sem mencionar sua linha teológica ou objetar com outras idéias. Enquanto o texto diz que os milagres de Jesus tinham o objetivo de provocar o governo, teólogos como MCDOWELL e WILSON afirmam que os “milagres de Jesus (...) não foram obviamente realizados para inspirar temor, mas para confirmar uma mensagem (1999:304)”. Articulam ainda: “Para os judeus os milagres eram sinais apontados para verdades particulares que Deus desejava revelar (1999:299).” Desse ângulo, ficam então descartadas os motivos subversivos dos milagres de Jesus.

Jesus era analfabeto

Esse é o único tópico onde o autor permite a contraposição de idéias. De um lado aparece Richard Horsley: “Pra muitos historiadores, ele provavelmente era analfabeto. Segue: ”Não acredito que ele [Jesus] fizesse parte dessa parcela [dos que sabiam ler].” Do outro lado contrapõe Juan Urias: ”Apesar de ter vindo de uma família muito pobre, é difícil imaginar que as discussões polêmicas que ele teve com seus contemporâneos relatadas nos evangelhos possam ter sido feitas por um homem que não sabia ler.”

O confronto de idéias aparece somente perto do fim da reportagem. Acontece que se trata de um ponto de pouca relevância. Por que CAVALCANTE não confrontou idéias nos assuntos polêmicas? Pseudoparcialidade parece ter sido usada aqui para dar um ar de transparência ao texto. KOVACH e ROSENSTIEL, em Elementos do Jornalismo, chamam isso de trapaça.

[1] Na mesma entrevista, Adriano comenta sobre a chamada da reportagem: “Existem as chamadas criativas, agressivas. Outras, bem diferentes, são as chamadas que cometam estelionato editorial - prometer e não entregar. Acho que a Super está longe disso.”
[2] Ver: CROSSAN, John Dominic. Jesus, Uma Biografia Revolucionária. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
[3] Ver: SCHWEITZER, Albert. Minha Vida e Minhas Idéias: Albert Schweitzer. São Paulo: Melhoramentos, 1931.
[4] Ver: SILVA, Rodrigo P. A Arqueologia e Jesus. Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária, 2001. Pág. 14, nota 8.
[5] Ver: HORSLEY, Richard A.; HANSON, John S. Bandidos, Profetas e Messias: Movimentos Populares no Tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995.
[6] Citação de Mateus 2:1. Outras passagens dos evangelhos onde é confirmado o nascimento de Jesus em Belém são: João 7:42 e Lucas 2:4-7.