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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Papa adverte contra o poder de 'sedução' da ciência

(Stephen Brown, da agência Reuters)

O papa Bento 16 alertou na segunda-feira contra os poderes "sedutores" da ciência, que relegam a espiritualidade do homem a um nível inferior, reanimando o debate ciência versus religião. Recentemente essa disputa impediu o pontífice de fazer um discurso numa universidade devido a protestos de estudantes.

"Numa era em que os desenvolvimentos científicos atraem e seduzem com as possibilidades que oferecem, é mais importante que nunca educar as consciências de nossos contemporâneos para que a ciência não se torne critério para o bem", disse o papa a cientistas.

As investigações científicas devem ser acompanhadas de "pesquisa antropológica, filosófica e teológica" para esclarecer "o próprio mistério do homem, porque nenhuma ciência é capaz de dizer quem é o homem, de onde ele vem ou para onde vai", afirmou.

"O homem não é fruto do acaso ou de um grupo de coincidências, determinismo ou reações físicas e químicas", disse o papa numa reunião com acadêmicos de várias disciplinas, promovido pela Academia de Ciências de Paris e pela Academia Pontifícia de Ciências.

O papa reiterou o apelo, feito em vários discurso desde que ele assumiu o posto, em 2005, para que a humanidade seja "respeitada como o centro da criação", e não relegada a segundo plano por interesses de curto prazo.

A postura conservadora do papa em questões como o aborto e as pesquisas com células-tronco embrionárias provocam protestos, como o dos estudantes da universidade La Sapienza, de Roma --instituição fundada por um papa há mais de 700 anos.

Bento 16, que iria discursar na universidade, teve de cancelar sua visita em face dos protestos.

Os universitários reclamavam especificamente de um discurso proferido pelo papa em 1990 no qual ele teria defendido a posição da Igreja no julgamento de Galileu Galilei por heresia, no século 17.

O Vaticano disse que os manifestantes interpretaram mal o discurso, proferido pelo papa quando ele ainda era o cardeal Joseph Ratzinger.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Mídia catequizada e Igreja em alta

[Daniel Lüdtke]

“Quem empilhou e separou esses jornais sobre o papa?”, perguntei a uma estagiária da agência. Depois do gesto dela de desconhecimento, percebi meu erro e sorri alto. Tratava-se apenas de uma pilha comum de jornais. Ninguém tinha separado os periódicos por tema. A própria mídia fizera isso.

Os meios de comunicação alardearam a visita de Bento 16 ao Brasil com meses de antecedência. O Estado de S. Paulo trazia a contagem regressiva para o grande dia no cada caderno especial “O papa no Brasil”. Mas, além de antecipar e cobrir o evento com muita técnica, a mídia deixou se envolver emocionalmente com o fato. Agiu como uma devota extasiada diante do religioso. A conseqüência foi uma exaltação da fé católica em detrimento das demais. Poucos foram os momentos de sobriedade laica.

“O Estado é laico. A mídia é laica?”, perguntou a última edição do Observatório da Imprensa aos internautas. Até 23 de maio, 81% deles responderam “não”.

Isso foi visível. Segundo a mídia, a real perspectiva religiosa no Brasil é o fortalecimento da Igreja Católica. Propagou-se a idéia de que ela é a Igreja com “i” maiúsculo. O resto é seita.
Em uma das manchetes do Jornal Nacional os evangélicos foram chamados indiretamente de seita. Já O Estado de S. Paulo, não poupou o uso do adjetivo na edição de 10 de maio – no caderno especial sobre a vinda do papa, com 12 páginas. Em outros textos, igrejas evangélicas que estão em ligação ecumênica com a Igreja Católica são chamadas de “denominações cristãs”. As demais são seitas.

Em alta?

Há uma constante superênfase na Igreja Católica nas fotos, na linguagem e na ideologia das entrelinhas. A Globo, que há quase 40 anos transmite a “Santa Missa”, mostrou sua estrita ligação católica desde a cobertura da escolha do novo papa. E a Globo sempre lucra com isso. A chegada dele ao Brasil fez a emissora subir 75% na audiência.

A mídia raramente mostra a queda gradual de membros da Igreja, além do crescente número de católicos não-praticantes. Ela mostra a Igreja em ascensão. Poucos enfatizaram a presença de menos de um terço do esperado na missa em Aparecida, e os que o fizeram, responsabilizaram o medo de congestionamento.

O Estadão, que em alguns momentos idolatrou o líder eclesiástico, ousou publicar, em 9 de maio, pesquisa que mostrou 33,3% dos católicos como não satisfeitos com a religião; enquanto que 90,7% dos que deixaram o catolicismo estão realizados na nova denominação. Oscilou, como muitos, entre um jornal sério e um house organ do Vaticano.

A Folha Online pareceu também ter percebido o excesso monotemático e, entre as mais de 50 notícias diárias sobre o papa no site, o jornal republicou uma série de reportagens chamada “saiba mais sobre religiões”. Além de abordar o Cristianismo como um todo, tratou de budismo, espiritismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo, cientologia e teoltecas. É como se o jornal estivesse dando uma mensagem: olhe, ainda existem outras religiões no mundo!

Lorota canônica

Muitas matérias tiveram o tom das revistas populares de fofoca. Mesmo Folha Online aproveitou o momento para desenvolver-se nesse segmento. “ Papa volta a acenar para fiéis que fazem vigília no mosteiro de São Bento”, publicou na quinta, 10, às 12h47. Duas horas depois outra notícia relevante: “Papa reaparece na sacada do mosteiro pela terceira vez para saudar fiéis”. O jornalista informa que o papa apareceu ao público após o almoço, e fez questão de informar o cardápio: “o papa comeu nhoque de mandioquinha acompanhado de vinho selecionado”.

“Saiba como é o quarto do papa em Aparecida”, divulgou também a Folha no sábado, 12. O Estadão, em 9 de maio, dedicou uma página inteira para mostrar os aposentos do papa no mosteiro São Bento. Mas a matéria vencedora foi: “ Papa descansa em seu quarto no mosteiro de São Bento”. Realmente foi muito importante saber que ele também dorme.

Aliança

Pouco se falou sobre a intenção da visita do papa ao Brasil. Apenas excessos sobre a fé dos brasileiros e exploração imagética do eclesiástico.

A passagem do pontífice pelo País tentava o estreitamento ainda maior entre Igreja e Estado. O Estadão, em 8 de maio, publicou reportagem afirmando que o Vaticano não conseguiria atingir seus objetivos principais na vinda do papa, que seriam “a assinatura de um acordo com o governo garantindo à Igreja todos seus direitos no território nacional, inclusive a consolidação de todas as isenções fiscais que recebe, obrigações no setor educacional e mesmo a autorização para que missionários possam entrar em reservas ecológicas e indígenas”. Segundo o texto, um dos temores do governo seria a pressão evangélica para acordo semelhante.

Uma coisa é certa: com o apoio dos meios de comunicação, com certeza o papa alcançará seus objetivos. Não foram poucas as vezes que o líder católico se reuniu com jornalistas. No avião em que veio ao Brasil, 70 jornalistas o entrevistavam durante toda a viagem. Recentemente, também, Bento 16 agradeceu aos profissionais pela cobertura da transição papal e disse que deseja dialogar mais com a mídia.

Crescendo essa ligação entre catolicismo e mídia, aliada ao ecumenismo sob o guarda-chuva da Igreja Católica Romana, a considerada herdeira direta dos apóstolos se consolidará. Esta é uma perspectiva certa. Resta saber se a Idade Média continuará somente no passado.